Aos onze anos tive minha menarca. Eu me lembro muito bem quando fui ao banheiro, vi uma mancha marrom escura na minha calcinha e saí pela casa procurando minha mãe, sem ter a menor idéia do que poderia ter acontecido – mesmo tendo passado a véspera sentindo cólicas horríveis! Depois desse dia um novo mundo surgiu diante meus olhos. Infelizmente, nesse novo mundo aprendi que a palavra menstruação, tanto como a menstruação em si, era algo sujo, incomodo... Aprendi que eu sofreria mensalmente de uma maldição que me traria dores, limitações e cheiros estranhos. E, por fim, aprendi que existe uma infinidade de tipos de remédios, absorventes e sabonetes que promete me aliviar de tais problemas e a qual eu tenho livre acesso. As opressões com as quais fui soterrada devido ao meu novo status me ensinaram a ter vergonha do meu ciclo, dos meus humores, do meu corpo e do meu ritmo.
A pensadora, Gloria Steinem, explora o sexismo
envolvido na demonização da menstruação em seu artigo “Se Os Homens
Menstruassem.” Steinem afirma que, caso os papéis fossem invertidos, os homens
tornariam o ciclo menstrual um evento másculo, invejável e fruto de competição.
De fato, assuntos acerca da menstruação e dos ciclos femininos sempre foram
motivo de inquietação por parte das sociedades patriarcais – mitos e crenças
populares que visam invalidar o discurso feminino encontram suas raízes em tais
sociedades. Elaine Showalter ilustra tal afirmação em seu livro “The Female
Malady.” A autora relata que na Inglaterra vitoriana, por exemplo, o discurso
médico vigente passou a usar o ciclo menstrual da mulher como justificativa
para a maior parte das questões relacionadas à sua saúde mental, observando
maior incidência de doenças mentais em fases como a menarca, puerpério e
menopausa. À tal afirmação podemos atribur o uso de expressões como “Tá
naqueles dias?” ou “Mulher grávida é louca.”
Fatores sócio-culturais ligados aos períodos
da vida das mulheres nunca pareceram ter muita importância na construção social
e entendimento do gênero feminino. Ainda abordando a representação feminina na
era vitoriana, podemos observar que durante a infância a menina vivia em um
estado liberal e quase andrógino – condição essa que era abruptamente rompida
com a chegada da primeira menstruação, quando a mulher passava a ser reduzida
ao opressor âmbito doméstico. Na organização social atual também não faltam
exemplos. O que falar da dupla jornada de trabalho feminina? Ou da
discriminação no ambiente de trabalho? Ou ainda da visão do corpo feminino como
algo público? Todas essas atitudes nos levam a indagar se as mulheres são
loucas por causa dos seus ciclos ou se ficam loucas após anos de opressão sobre
suas vidas? A herança que o pensamento vitoriano nos deixou acerca do feminino
afirma que nossos corpos são errados – partes do corpo feminino e suas reações
fisiológicas naturais são motivo de embaraço e devem ser mantidas em segredo. É
tal herança que ensina as meninas a transformarem um período de sensações
férteis, tanto em termos emocionais como sexuais, em um período de vergonha e
punição. A opressão do componente e do corpo feminino forma mulheres sem voz,
inimigas de seus corpos e seu gênero.
Autora de “Mulheres que Correm com os Lobos”,
a bíblia do arquétipo feminino, Clarissa Pinkola Estés, relata que, em termos
culturais, podemos dar muitos exemplos de como o arquétipo do predador molda
idéias e sentimentos a fim de roubar a luz da mulher. Tal afirmação pode ser
ilustrada através da visão crítica acerca da perda da percepção natural nas
gerações de mulheres cujas mães interromperam a tradição de ensinar e preparar
suas filhas para acolhê-las no aspecto mais básico e fisiológico do ser mulher,
a menstruação. Pinkola Estés aponta ainda que as mulheres nos tempos antigos,
assim como as mulheres aborígenes modernas, reservavam um local sagrado para
suas indagações e comunhão durante o período menstrual. A autora afirma que tal
tradição deve-se ao fato de que, durante a menstruação, a mulher está muito
mais próxima do autoconhecimento do que o normal. “A membrana que separa a
mente consciente da inconsciente fica, então, consideravelmente mais fina.
Sentimentos, recordações e sensações que normalmente são impedidos de atingir a
consciência chegam ao conhecimento sem nenhuma resistência.”
Ainda de acordo com a visão de Pinkola Estés,
a transmissão da henna e de outros pigmentos vermelhos às mocinhas nas antigas
culturas matriarcais da Índia, do Egito e de partes da Ásia e da Turquia
celebra a travessia da infância para a profunda capacidade de gerar vida no próprio
ventre, de dispor do poder sexual resultante e de todos os poderes femininos
periféricos. Tais ritos de passagem apresentavam o sangue em todos os seus
estágios - o sangue uterino da menstruação, o do parto, o do aborto... Outro
exemplo da glorificação do sangue menstrual deriva do antigo Egito, onde o
sangue era considerado sagrado. Assim, antes de serem mumificados, muitos
faraós eram pintados com sangue menstrual, de forma a garantir seu renascimento
- já que tal sangue representava a vida e o poder de criação.
Claudia Morelli Gadotti, em seu artigo
“Loucura ou Criatividade?”, explora a condição arquetípica do feminino e seus
desdobramentos na organização social. A autora aponta que “estar na Vida é
incluir também o sangue menstrual como um fluido de Vida e não apenas de morte,
aceitando seu aspecto gerador e criativo, escancarando nossa natureza carnal,
fisiológica e instintiva.” Morelli Gadotti afirma ainda que “na sua experiência
corporal, a mulher vive constantemente a fantasia da morte. A morte nossa de
cada dia, ou melhor, de cada mês, enterrando mensalmente a possibilidade de uma
nova vida.” Portanto, a dinâmica feminina na mulher aceita e compreende o
movimento cíclico da vida.
Porém, ainda com a existência da herança
maldita com a qual as mulheres foram presenteadas, atualmente, podemos acompanhar o surgimento de
diversas organizações e indivíduos que procuram lutar contra a prática da
demonização da menstruação. O grupo performático espanhol Sangre Menstrual,
circula pelas ruas com calças e shorts manchados de sangue a fim de chamar
atenção para seu manifesto - que afirma que escondendo nossa menstruação
estamos nos tornando parte ativa do sistema patriarcal e nos punindo por sermos
mulheres. As mulheres da The Red Web Foundation estão trabalhando para promover
uma visão mais positiva, sensível e saudável do ciclo menstrual através de
diversos programas. A marca de lingerie Dear Kate, lançou uma campanha
publicitária que reúne mulheres contando histórias relacionadas à suas
menarcas. Por fim, como não citar a usuária do Instagram, Rupi Kaur, que postou
fotos de um ensaio feito com sua irmã buscando empoderamento menstrual e teve
suas imagens deletadas da rede?
Pessoalmente, é extremamente gratificante ver
o tabu acerca do corpo feminino ser questionado – afinal, o questionamento é o
primeiro passo para a mudança. Uma visão mais positiva, inclusiva e, por que
não, orgulhosa dos processos corporais femininos gera o empoderamento das
mulheres e das características femininas. Mulheres, já passou da hora de
retomarmos nosso poder!
